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domingo, 17 de julho de 2011

Assembleia e acampamento dos professores


A imagem pode estar um pouco prejudicada, por eu ter gravado do meu celular, mas a ideia geral é clara e não foi decidida por meia dúzia de gatos pingados, foi decidida por centenas de professores. Essa cena, gravada em 29/06/2011, se repete em todas as assembleias que eu vou, e cada vez mais professores aderem à greve. Devo dizer que estar ali, fazendo parte de uma decisão tão importante é algo que me comove. Acredito que, mais uma vez, estou lutando pelo que é certo, e, tentando mudar o curso da história.

A greve continua, assim como as ofensas do governo contra os professores. Nesse momento vários estão acampados em frente a secretaria de educação do Rio de Janeiro e vão permanecer, até que a assembleia decida o contrário ou até que o governo negocie conosco.
Sabendo mais eu posto aqui! Bom descanso para os que estão de férias, porque aqueles que estão de greve, abriram mão de suas férias.

Um grande abraço,
Alícia

Entendendo o Movimento dos Professores da Rede Estadual de Ensino.




Senhores Deputados.

Entendo que a maioria dos senhores, que não são da área da Educação, não têm a obrigação de saberem os pormenores que levaram à deflagração da greve que há mais de um mês atinge as escolas da rede estadual. Só peço aos senhores paciência para lerem as considerações a seguir.
Desde o início do ano letivo de 2011, os representantes da categoria têm tentado apresentar ao Sr. Secretário de Educação, Wilson Risolia, as nossas reinvindicações, mas a estratégia dele foi sempre a de nos ignorar.
Aliás, o desprezo pela nossa categoria tem sido manifestada desde a sua posse, quando declarou que os professores ganhavam bem pelo que trabalhavam. “Maravilhoso” começo de gestão, que deu o “ponta- pé” inicial na relação mais conturbada que já vi entre um secretário da pasta e os professores na história deste nosso Estado do Rio de Janeiro.
Como nunca havia colocado os pés antes numa escola estadual, desconhecia, e ainda desconhece, que cada professor tem em média 240 alunos. Imagine o quanto isso representa de trabalho extraclasse, salientando-se que raríssimas são as escolas estaduais que têm orientadores pedagógicos e educacionais. Somos vítimas, como também ocorre com muitos parlamentares, do trabalho invisível, haja vista que também é muito comum se considerar no caso dos senhores somente a presença no plenário, e não o trabalho nas bases, nas comissões etc.
Neste início de ano letivo a SEEDUC nos brindou com um famigerado Plano de Metas, sem qualquer participação da comunidade escolar, tentando implementar na rede estadual de educação a lógica de produtividade da iniciativa privada. A visão é de se organizar a escola como uma fábrica, os professores como máquinas e os alunos como mercadorias.
Assim, a remuneração dos professores está diretamente atrelada ao alcance das tais metas, reajuste salarial nem pensar. Então, para o professor ter direito a um “14º salário” as metas são as seguintes, fruto da “genialidade” da equipe da SEEDUC: Ótimo desempenho dos alunos na prova padronizada do Saerj (português e matemática), sem qualquer consideração às peculiaridades de cada escola, sendo submetidos a esta prova também os alunos com necessidades especiais, cuja inclusão no ensino regular é garantido por lei, e também os alunos que não tiveram aulas destas matérias por carência de professores; índices de gravidez, envolvimento com drogas, participação dos maiores de 16 anos nas eleições, distorção idade-série (e os alunos especiais ?) e outros absurdos que nada têm a ver com o processo pedagógico, este sim de responsabilidade, dentre outros profissionais, também do professor. Isso sem falar no professor que acometido de alguma doença e cometer o abuso de tirar licença-médica, sofrerá como punição a exclusão da virtual gratificação.
Desde o início do ano letivo temos tido a preocupação de colocar, tanto alunos como seus responsáveis, a par de todos estes pontos da política educacional do Estado. Portanto, não nos surpreende o grande apoio que temos recebido ao nosso movimento, mesmo conscientes do prejuízo momentâneo que estão sofrendo, mas participando conosco de uma luta que tem por objetivo traçar um rumo responsável para a Educação no nosso Estado do Rio de Janeiro para os próximos anos.
O discurso da falta de verbas para reajustar os salários dos professores, não encontra eco entre os responsáveis pelos alunos, que na maioria foram eleitores do Governador Sérgio Cabral, que constatam com os seus próprios olhos, ares-condicionados e computadores alugados por valores unitários maiores do que o salário de um professor, cada porta substituída no valor de R$ 4.000,00, pintura de sala de aula de 35m2 no valor de R$ 6.000,00. Em Nova Friburgo, a reforma da quadra esportiva do maior colégio estadual da cidade custou o preço de uma fazenda, cerca de R$ 800.000,00.
Aliás, citando Nova Friburgo, cidade que mais sofreu com a tragédia da região serrana, temos um índice de 70% de paralisação. Acredito que muito contribuiu para esta adesão a atitude completamente insensível da equipe da SEEDUC na época. Numa reunião com os diretores, os mesmos argumentaram pela necessidade de adiamento do início do ano letivo devido à perda de profissionais e alunos, mortos na tragédia, além de que inúmeras escolas haviam sido atingidas por deslizamentos e pelas águas, tendo suas estruturas afetadas. Isso sem mencionar que o nosso maravilhoso Instituto de Educação de Nova Friburgo, serviu de IML, abrigando mais de 400 corpos. Resposta dos técnicos: não queremos saber de sentimentalismos, o retorno se dará de qualquer jeito no dia 07 de fevereiro. Estas pessoas estão à frente da Educação em nosso Estado.
Não há segredo para uma educação de qualidade: profissionais qualificados e bem remunerados, estrutura e materiais pedagógicos adequados. Computadores são instrumentos a serem utilizados pelo profissional, não o substituem. A fórmula é conhecida, mas será que há interesse real numa educação pública de qualidade? Temo que não, pois quem ira querer pagar escolas particulares e quantos políticos querem o povo educado e crítico da situação do país.
Chegamos a um ponto crítico. Os professores não darão um passo atrás no movimento, mesmo que isso comprometa, inexoravelmente, todo o nosso ano letivo. Basta de colocar a culpa das mazelas nos profissionais que trabalham com salários indignos e são constantemente desrespeitados por “paraquedistas”, que jamais pisaram numa sala de aula da rede pública de ensino. O secretário Risolia distorce, desde o início da sua gestão, todas as estatísticas da SEEDUC. Faz declarações que a categoria sabe que não são verdadeiras, tentando nos incompatibilizar com a população. Chegou ao cúmulo de distorcer uma decisão judicial, fazendo publicar no site da SEEDUC que a justiça nos tinha obrigado a repor as aulas, omitindo a parte dispositiva da decisão que proibiu o corte do nosso ponto e anotações na folha funcional, reconhecendo o nosso direito constitucional de greve.
Hoje, o secretário-economista, se utiliza do Jornal O Dia para mais uma vez, de forma unilateral, sem qualquer diálogo com a categoria, anunciar o aumento da carga-horária dos professores, e não da hora-aula. Aumento de salário acompanhado de aumento de carga-horária significa somente agravar a crise provocada pela super-exploração da mão-de-obra barata em que se converteram os professores da rede estadual de ensino. Neste momento, em que deveria haver desarmamento dos espíritos para chegarmos a um consenso, ele novamente opta em provocar e mesmo afrontar a categoria. Lembremo-nos que ele também utilizou o mesmo meio de comunicação para declarar que estava lendo o livro “A Arte da Guerra” para conhecer melhor os inimigos. Quais ? Os professores.
Finalizando, está nas mãos do Governo do Estado o fim da greve. Já foi reconhecido por membros do governo que há recursos para conceder o aumento pleiteado pelos professores. Condicionar as negociações à suspensão da greve apenas arrastará o movimento por mais tempo, porque nem passa pelas nossas cabeças esta possibilidade, não há relação de confiança para isso. Ora, por que não negociar agora ? Quem recebeu a carta do então candidato Sérgio Cabral, ainda no seu primeiro mandato, é “gato escaldado” e não vai se arriscar na água fria.
Agradeço a paciência, mas os senhores talvez, agora, possam entender melhor a posição dos professores e tentar sensibilizar o governador para o atendimento das nossas reivindicações, porque com os secretários de Educação e Planejamento é muito difícil, pois para eles a vida está resumida a números e estatísticas, que têm o condão de fazer desaparecerem os seres humanos, que se submetem a spray de pimenta nos olhos e a ficarem acampados no meio da rua em condições humilhantes porque acreditam numa causa: EDUCAÇÃO PÚBLICA GRATUITA E DE QUALIDADE PARA A POPULAÇÃO TRABALHADORA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.

sábado, 18 de junho de 2011

Sobre a greve



Venho pedir desculpas aos alunos que estão sem aulas devido a minha adesão a greve, mas achei que estava na hora de tentar parar de ensinar sobre política para vocês e realmente mostrar o que a política significa.
Política não é sinônimo de corrupção, é sinônimo de ação. Uma ação social, direcionada e que visa um bem maior. Nenhuma política é feita de forma individual, ela é sempre coletiva. Como professora, eu estava me trancando em uma bolha de segurança dentro de sala de aula, ensinando o que me era mandado ensinar, mas esquecendo o verdadeiro significado do que estava ensinando. Como posso lhes dizer para serem éticos e terem atitudes políticas se eu mesma não o estava fazendo?

Aderi a essa greve não só por causa do dinheiro. Todo mundo sabe que o professor ganha pouco, e eu sabia disso quando fiz o concurso. O dinheiro é importante na vida do ser humano, mas não é tudo. Quero um salário mais justo, e quem não quer? Quero saber que todo o estudo e todo o trabalho que eu tive para chegar onde cheguei, pode e deve ser recompensado. Contudo acho que essa recompensa deve vir da maneira certa. Reivindicar um salário melhor é apenas a ponta do iceberg. Essa greve é por muito mais do que isso.

Quantas vezes eu falei para vocês que não fazia greve e que não acreditava que a greve mudaria alguma coisa? Quantas greves eu furei e ouvi de vocês: "Os professores estão em greve, por que você não ficou em casa?"
Fazer greve é um direito assegurado na constituição à todo o trabalhador, mas fazer greve para ficar em casa, não é fazer greve. Fazer greve é um ato político e como tal deve ter um propósito que beneficia a sociedade. Não estou em greve para ficar em casa, estou em greve porque resolvi comprar uma briga em prol de um ideal. Algo que eu acredito e pelo qual vale a pena lutar, e esse algo não é meramente o salário, como a mídia vem noticiando, é o plano de metas do governo para a educação.

Quero que todos os alunos de escolas públicas tenham as mesmas chances dos alunos de escolas particulares. Quero um ensino de qualidade e a garantia do direito de vocês à esse ensino. Quero que vocês se formem sabendo mais do que sabiam quando entraram na escola, porque esse conhecimento que vocês têm direito a adquirir na escola é só uma base para o conhecimento que vão acumular no resto da vida. Só o conhecimento pode mudar a vida das pessoas!
É pelo ensino que estou lutando. É contra o sucateamento das escolas públicas, contra a desvalorização dos profissionais do ensino, contra metas educacionais que não visam ensinar e sim alienar, contra políticas públicas que servem para dividir os profissionais da educação e colocá-los uns contra os outros quando todos deveriam estar juntos.
Pode ser difícil para vocês entenderem, mas estou em greve por vocês, pelo meu filho e por todos os estudantes das escolas públicas. Acredito que vocês merecem o melhor e tem direito ao melhor. A educação está em crise e quem sofre com essa crise são vocês.
O que talvez vocês também não compreendam é a importância de vocês para o país. Os estudantes de hoje são os profissionais de amanhã. No futuro estará nas mãos de vocês fazerem o mundo continuar a girar. E a educação que recebem hoje é o que vai determinar como vão conduzir seu próprio futuro. Se essa educação for ruim e infrutírefa, vocês se tornarão meros papagaios. Sempre reproduzindo o que escutam, mas nunca refletindo, nunca questionando, sempre aceitando. E quando o mundo precisar que pensem, vão empurrar alguém para pensar por vocês. Isso não é bom e eu sei que vocês podem fazer melhor.

Por isso, apesar de estar comprando essa briga, ela não é só minha. Ela é de vocês, dos pais de vocês e de todos que se importam com o ensino. A educação é um direito de todos! E se vocês acreditam nisso, como eu acredito, não continuem alienados. Se informem, a internet serve para isso também!
Procurem o site do SEPE (Sindicato dos Professores) e as mobilizações que estão acontecendo nessa greve.

Um grande beijo,
Alícia